
Notícias, Lendas e Descobertas

A Casa
Estou na Casa da Ponte Mulheres de Fogo em Garopaba, Brasil. Eu e outras 8 mulheres estamos experimentando morar juntas por 9 dias e 8 noites. Decidi que ia amparar espaço para uma Casa da Ponte no último Laboratório Mulheres na Terra no Brasil com a treinadora @annechloedestremau. No último dia do laboratório, fizemos uma prática em grupo para entregar nosso valor imaterial. Nessa prática, criei o nome da Casa da Ponte, quando seria, quem eu convidaria, o que eu queria fazer e uma equipe. Três dias após o término do Laboratório, enviei mensagens para as Mulheres e, para minha surpresa, quase todas disseram sim. O propósito da Casa da Ponte Mulheres em Chamas é ser um espaço onde as mulheres possam praticar habilidades para abrir espaço e empoderar umas às outras para serem a ponte que nos leva das margens da cultura moderna para a próxima cultura. Estamos experimentando com cada mulher abrindo espaço para uma prática. Construímos nossa própria espada de madeira, praticamos transformação e cura através dos sonhos, dançamos nossos sentimentos, praticamos a raiva todos os dias, DOJO e caminhadas na floresta. Por dois dias, Camile veio à Casa da Ponte com sua filha de três anos, Eleonora. Certa manhã, estávamos praticando sentir a Raiva, e Eleonora observava aquelas mulheres furiosas gritando. Ela estava fora de si, mas observava com curiosidade o que estava acontecendo. Logo depois, saímos para uma caminhada e, de repente, Eleonora começou a dizer às mulheres: "Vocês precisam usar a raiva para fazer a caminhada", e começou a empurrar as pedras no caminho, fazendo sons de raiva. Uma coisa que notei foi que as mulheres começaram a entrar em um estado líquido, à medida que as fantasias de como seria viver com outras mulheres em uma Casa da Ponte começaram a se desfazer. Nos primeiros dois dias, quase todas estavam praticando a "boa convivência". Parece que até a casa começou a tremer as mulheres, fazendo-as entrar em estado líquido. De repente, ficamos sem água quente, a internet caiu e o frio intenso nos tirou completamente o conforto. Os Gremlins começaram a reagir, e eu abri espaço para uma conversa radical sobre o que realmente estava acontecendo, e o resultado foi que as mulheres se revelaram de forma autêntica. O que descobrimos é que temos sede de viver uma vida real. Yara gritou de raiva por um tempo, dizendo o suficiente para silenciar sua expressão de raiva. Propus que Fabiana fizesse o experimento de não trabalhar na cozinha, pois percebi que ela estava fazendo a mesma coisa que faz na vida, ficando superocupada. Hoje ela chorou porque estava perdida, dizendo: "Como as pessoas vão me amar se eu não estiver sendo útil?". Estamos no meio desse experimento de viver juntas.

Era para ser uma lenda
Por Jaqueline Sampaio
Eu quero que todo mundo me entender. Eu quero fazer todo mundo me entender. Eu não sei o que eu preciso conter ou o que eu preciso falar. Eu não sei o que faz sentido falar. Parece que eles não vão me entender. É como se as pessoas não pudessem me acessar. Isso são emoções. Eu posso me comunicar. Eu quero pedir um espaço de clareza, de escuta. Para eu falar das minhas emoções sobre não me sentir compreendida. Quando eu to sozinha é muito mais fácil voltar para o centro/presente, pro que realmente importa para mim. Ontem com a Andrea eu voltei muito num lugar de ninguém me entender, ninguém me ouvir. De quando eu era bebezinha e não podia falar. Tipo, o meu cérebro emanava ondas de comunicação. E ninguém conseguia receber e isso ainda está em mim e quando eu começo a falar é como se eu já falasse dessa certeza que ninguém vai me entender. Contei sobre uma experiencia que eu tive em um processo e Danielle falou que onde eu havia chegado era em um meme. Fiquei com vontade de investigar isso de processos meméticos. Quero dar nome aos bois, dizer o que consigo fazer, o que eu sei amparar. Quero escrever o meu site e colocar as coisas claras para as pessoas poderem me entender. Caralho está tão vivo isso de ser entendida. Ontem depois do filme falei um pouco da minha perspectiva sobre a história e o baixo drama de vítima-vilão e sobre como essas histórias tem um ciclo, olhando do macro. Me lembra muito o Mickey 17, o filme que assisti recentemente e chorei, fiquei tocada. Mickey se coloca em uma situação extrema de desamparo, desamor, ele se torna uma pessoa descartável e o filme mostra, da sua forma, onde começa aquele ciclo. Um ciclo de culpa e então justificativa. Sou culpado por aquilo então posso passar por isso, porque estou pagando. Geralmente na vida não é assim que acontece. Você não se lembra do que se sente culpado e não pensa que está pagando (algumas pessoas sim), você pode até reclamar e dizer: não queria estar aqui, não sei por que estou aqui. Mas tem um motivo para você estar. Não tem como algo estar na sua realidade experiencial sem que de alguma forma aquilo tenha sido despertado por você mesmo. A vida é uma troca experiencial, não tem como você experienciar algo no qual você não se colocou. Seja coletiva ou individualmente. Ouvindo a Jessica hoje falar sobre a guerra e os judeus me lembro da pesquisa da faculdade. Eu me perguntava tanto por que aquilo, porque a guerra, por que os campos de concentração? E eu fui descobrindo que não tem como separar experiencia coletiva de individual e não tem como se extinguir da sua linhagem, seja lá o que isso significa. E daí me faço a pergunta, escolhemos isso tudo antes de nascer? Quando olho para minha vida agora me vejo como dentro da minha pesquisa dos sonhos. Qual o propósito dessa história? Por que me coloquei nessa história? Se ela não tivesse um propósito para mim ela não existiria. Então porque eu vou reclamar de estar dentro dela. É diferente eu sentir raiva e me empoderar de dentro dela. Crio uma história para poder navegar na vida o que eu quero acessar, mudar dentro de mim. Como a escritora que escreve para querer lembrar. Sinto medo de ficar muito abstrata, e sinto medo disso ser para mim como uma emoção incompleta que eu fico repetindo e repetindo esperando alguém me ouvir. Me validar. Me lembro de Primo Levi e Ruth Klüger escrevendo sobre suas experiencias passadas nos campos de concentração. Do sonho em looping dele de que contava suas histórias dos campos e ninguém acreditava porque era surreal demais até para ter acontecido, imagine para partilhar. De Ruth, que voltando a Alemanha para dar uma palestra é atropelada por uma bicicleta e só depois disso começa a escrever e elaborar seu passado que foi tão importante para mim de ler e de anestesiar uma parte da minha infância tão adormecida. Me volta o medo de não me fazer compreender. Danielle perguntou ontem “E como você pretende finalizar isso?”. E é isso, é como se eu ficasse sempre tentando fechar algo impossível de fechar que é a vida e sua evolução em ciclos e camadas.

Útero
por Andrea Lavourinha
Braços abertos, amorosos, calorosos, energizados. Uma prontidão de amor. Uma recepção acalorada de sorrisos, lendas, informações, energias. “Você quer um chocolate quente?” Delicioso. Leite vegano, chocolate de verdade, e amor. Com toque de entusiasmo. De quem está viva. Pronta. Preparada para mais. Um grupo de mulheres preparadas para mais. Muito mais. Me vi abraçada. Abraço de alma. Em meio ao turbilhão, um tsunami de cenas fortes, cirurgia oncológica, hospital, tensão, noites difíceis, dias difíceis. Medo profundo de testemunhar um processo de dor no corpo, morte no corpo, transformação rumo ao desconhecido. O novo. De novo. Adaptação de novo. Amparar espaço para a tristeza da minha mãe. A tristeza da volta da doença. A tristeza de se sujeitar a invasões. De ver o próprio corpo entregue. De confiar em um tratamento, em que muitas vezes falta tudo. O cuidado humano. O medo da minha mãe de atravessar. A travessia intensa. O meu medo de atravessar. De atravessar amparando a dor dela. Travessia sem paredes, sem chão, sem amparo. Travessia sem garantia de nada. Travessia sem certezas. E a única certeza em meio a todas as incertezas: estarei junto dela. Profundamente juntas. Para o que der e vier. Sem pestanejar. Sem duvidar. Sem questionar. Estarei junto da mulher-mãe que me pariu. Para atravessar de mãos dadas. E assim foi. Até decidir vir abraçar as Mulheres de Fogo. Um entusiasmo gigante para estar com essas mulheres. Todo esse processo é sobre mulheres. Gaia é mulher. E ser mulher é estar profundamente junto de mulheres. A nova cultura permite que o fio que nos conecta seja aceso. Permaneça aceso. No maior dos apagões, o fio está aceso. Eu me vi recebida. Por braços acesos. Braços que derramaram o néctar de cuidar. Foi como receber de volta o cuidado, de um jeito tão natural que me surpreendi. As Mulheres de Fogo me entregaram casulo, holding, afago, amparo. E chocolate quente. Me permitiram soltar. Me deram como feedback estar mais. Receber mais. Parece o mesmo recado de Gaia para mim. Um grito de “receba a nutrição”. Esteja no casulo. Se derreta no útero. Minha mãe removeu o útero. Eu vi a foto. Nada parecido com a imagem clichê em que acreditei durante toda minha vida. Eu cheguei aqui, e recebi um útero. Um entorno de útero.